Clima na Austrália e cota de exportação da Rússia sustentam os preços do trigo
24/jan/2020

Clima na Austrália e cota de exportação da Rússia sustentam os preços do trigo

Publicado originalmente: Valor

No maior nível em quase um ano e meio, as cotações mundiais do trigo devem sustentar os atuais patamares neste primeiro semestre em razão da recuperação da demanda e de problemas de oferta em algumas regiões. Mas engana-se quem pensa que falta trigo. A relação entre a oferta e a demanda da commodity é uma das mais confortáveis das últimas safras. O que pode faltar é o cereal de melhor qualidade – usado na fabricação de pães.

No Brasil, a situação não é diferente e os preços devem continuar elevados. Além dos problemas na produção de alguns dos principais exportadores, o principal fornecedor ao mercado brasileiro, a Argentina, tem voltado seus esforços para atender outros mercados em meio à oportunidade criada pelos problemas climáticos na Austrália. O dólar mais valorizado – acima de R$ 4,00 – também eleva o custo de importação. O Brasil produz aproximadamente 50% do trigo que consome.

Sexto maior exportador de trigo, a Austrália sofreu com o clima seco nas últimas três safras, o que fez a colheita do país diminuir 23%, passando de 20,9 milhões de toneladas na safra 2017/18 para 16,1 milhões de toneladas na atual safra, de acordo com projeções do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

As queimadas na Austrália, ao contrário do que se imagina, não atingiram diretamente as lavouras, mas afetaram o solo e a economia local. “Os produtores precisarão de mais tratos culturais para reavivar a terra ao mesmo tempo que têm menos dinheiro disponível”, disse Roberto Sandoli, consultor em gerenciamento de risco da INTL FCStone.

A Austrália é o maior fornecedor de trigo para Ásia e África. Sem ela, a Argentina aproveitou a oportunidade e deve entregar um volume recorde de 1,2 milhão de toneladas para Vietnã, Tailândia e Filipinas nos próximos dois meses, conforme informou a agência Reuters.

Além da menor oferta australiana, o mercado mundial se vê com problemas pontuais na Rússia e França. Os russos, líderes na exportação, anunciaram que vão criar uma cota para embarques até julho, de 20 milhões de toneladas, para controlar os estoques. A França convive com uma greve de ferroviários e de trabalhadores dos terminais de grãos, que está retendo 450 mil toneladas nos armazéns.

“Isso tem garantido os preços altos em Chicago”, afirmou Karl Setzer, da consultoria AgriVisor. Na terça-feira, os contratos de segunda posição de entrega atingiram o maior nível em 17 meses, a US$ 5,81 o bushel. Ontem, fecharam a US$ 5,79. O analista também cita como fator de apoio às cotações o fato de os EUA terem anunciado a menor área de plantio de trigo de inverno, o cereal de melhor qualidade, desde 1909.

“O fator chave para os preços nos próximos meses serão as chuvas no Hemisfério Norte entre fevereiro e março. Neste momento, o trigo está em dormência e com pouco volume de neve para protegê-lo e depois derreter. Sem chuva, haverá menor oferta na região do Mar Negro, Europa e Rússia”, acrescentou Sandoli.

Na Argentina, a dúvida que paira é se os produtores continuarão a semear a mesma área em 2019/20 diante do retorno das retenciones pelo presidente Alberto Fernández. “Mas ainda é muito cedo para traçarmos um cenário para o fornecimento a partir de abril ou maio”, disse o consultor. A Argentina ainda tem disponível 12 milhões de tonelada de trigo, suficientes para atender a Ásia e o Brasil até a entrada da próxima safra.

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