Previsões climáticas reforçam riscos para a produção de milho
24/jan/2020

Previsões climáticas reforçam riscos para a produção de milho

Publicado originalmente: Valor

A previsão de chuvas abundantes nas regiões produtoras de soja do Centro-Oeste nas próximas semanas acendeu o alerta para os riscos à safrinha de milho, que é cultivada assim que a oleaginosa é retirada do campo. Se as chuvas retardarem ainda mais a colheita de soja, a produção de milho de inverno pode ficar mais exposta aos riscos climáticos.

Para as agroindústrias de aves e suínos, um eventual problema na safrinha tornaria ainda mais difícil a estratégia de suprimento de milho, principal insumo da ração. Para este começo de ano, grande parte da indústria já está abastecida de milho, mas o setor conta com a chegada da safrinha, que começa a ser colhida em maio, para conseguir um alívio nos custos de produção.

Desde agosto do ano passado, o preço do milho vem subindo no mercado doméstico – em parte devido à forte demanda externa pelo grão brasileiro -, o que obrigou companhias como a JBS a importar milho de países do Mercosul. Em Mato Grosso, maior Estado produtor de milho do país, o preço está próximo do recorde nominal.

Ao Valor, o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, ressaltou ter recomendado que as indústrias associadas antecipassem a compra de milho para evitar problemas de abastecimento.

“A preocupação no momento é como a colheita da soja vai evoluir diante dessa perspectiva de chuvas”, afirmou a analista da MBAgro, Ana Laura Menegatti. Para ela, no momento, há condições para o plantio de milho em um período aceitável, ainda que numa janela mais curta, devido ao atraso no plantio da soja.

Na avaliação de Alaide Ziemmer, da consultoria AgRural, o grande problema é se as chuvas forem constantes. “Caso elas cheguem sem intervalos, poderá ter impacto para o milho”, disse. Até 16 de janeiro, 1,8% da área de soja havia sido colhida, abaixo dos 6% registrados no mesmo período do ano passado, de acordo com a consultoria.

Para o agrometeorologista Marco Antonio Santos, da Rural Clima, ainda é prematuro dizer que as chuvas podem provocar um atraso ainda maior no plantio. “A capacidade dos produtores de recuperar as interrupções nos trabalhos no campo é alta”, afirmou. A janela ideal de plantio da safrinha é até 22 de fevereiro.

Nesse cenário de incertezas em relação à safrinha, as indústrias de aves e suínos e também das de etanol de milho vêm acompanhando a situação junto ao governo. Na última terça-feira, representantes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e de associações de produtores e indústrias se reuniram para discutir o abastecimento do grão. A reunião fez parte do grupo de monitoramento da oferta da commodity.

No caso das carnes – cujos preços estão começando a arrefecer neste início de ano, após um pico estimulado pela demanda chinesa no fim do ano passado – a avaliação é que a alta do milho terá de ser repassada em alguma medida ao atacado e ao varejo, dando suporte aos preços, afirmou o analista Gustavo Rezende Machado, da consultoria Agrifatto.

Apesar do possível repasse da alta do milho aos consumidores, a avaliação de Menegatti, da MBAgro, é que a inflação deve ser menor daqui para frente. “Há pouco espaço para novas altas expressivas. Vale lembrar que o consumidor tem limite para alta de preço, tanto no mercado interno como no externo, e que a oferta de carne vermelha deve aumentar em breve à medida que termina a entressafra”, disse.

O encarecimento do milho ainda não afeta as usinas de etanol, que têm, em média, grão em seus estoques suficiente para abastecer seis meses de produção, segundo Guilherme Nolasco, presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem). “Para o período crítico de março a junho, até o início da colheita da safra, as usinas já estão compradas”, afirmou.

Nolasco estima que o milho estocado nas usinas tenha sido adquirido por um preço médio de R$ 24 por saca, abaixo, portanto, dos patamares vigentes em Mato Grosso. Há atualmente 15 usinas de etanol no país que utilizam o grão como matéria-prima e outros 15 projetos em execução ou estudo. Os preços nos atuais patamares “já trazem inviabilidade para novos investimentos”, disse.

No último relatório semanal, divulgado segunda-feira, o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) informou que o preço do milho atingiu R$ 36,39 por saca no Estado, próximo do recorde de R$ 37,43 registrado em maio de 2016. O indicador Esalq/BM&FBovespa ficou ontem em R$ 51,49 por saca, valorização de 33,5% em um ano. “Há pouco milho disponível. A maioria dos produtores esvaziou os armazéns para abrir espaço para a entrada da safra de soja”, argumentou Cleiton Gauer, analista do Imea.

De acordo com o analista Victor Ikeda, do banco holandês Rabobank, a valorização do grão reflete também o menor estoque de passagem no país, além da estiagem que prejudica a safra do Rio Grande do Sul. O estoque final está estimado em 9,1 milhões de toneladas pela Conab, na menor relação entre estoque e consumo desde a safra 2012/13. A estatal projeta que a safra será de 98,1 milhões de toneladas, queda de 1,3% ante o ciclo passado.

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