Risco de sobreoferta já entra no radar da avicultura no Brasil
09/out/2019

Publicado Originalmente: Valor Econômico

Risco de sobreoferta já entra no radar da avicultura no Brasil

Atual ampliação da capacidade de produção no país pode estar superestimando a demanda futura

O risco de uma sobreoferta de frango no Brasil começou a preocupar analistas e executivos da avicultura. Com a rentabilidade da agroindústria de carne de frango em bons níveis – sobretudo para quem exporta, graças à valorização do dólar -, o estímulo ao aumento da produção já se faz notar com a ocupação de capacidade ociosa e com o anúncio de novos investimentos na ampliação de frigoríficos de aves.

Há duas semanas, a paulista Zanchetta Alimentos anunciou um investimento de R$ 730 milhões para dobrar a produção de frango. O projeto prevê a construção de um abatedouro em Conchal (SP), com capacidade para processar 380 mil aves por dia. A planta deverá entrar em operação em 2022.

Ao Valor, a mineira Pif Paf também indicou planos de ampliar a capacidade de produção de frango em 2022. Operando praticamente a plena capacidade, a companhia planeja investir cerca de R$ 300 milhões para ampliar a produção em Palmeiras de Goiás (GO), disse o presidente do conselho de administração, Luiz Calos Costa, em recente entrevista.

Embora os projetos levem alguns anos para afetar a relação entre oferta e demanda, há quem alerte para a possibilidade de o ciclo positivo para os frigoríficos de frango estar com dias contados. Para o longo prazo, a avaliação é que os projetos de expansão podem estar superestimando a demanda global – o choque de oferta provocado pela epidemia de peste suína na China não é eterno.

Mas os riscos não estão restritos ao longo prazo. Se até 2020 as vendas não deslancharem, um excesso de oferta estará contratado. “Pintaram exportações excepcionais, mas elas não estão acontecendo. A expectativa é uma e a realidade é outra”, afirmou José Carlos Godoy, secretário-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Pintos de Corte (Apinco). Segundo ele, as agroindústrias seguem ampliando os alojamentos de aves matrizes, o que terá reflexo na oferta de carne de frango em meados do próximo ano. “Vamos ver se até lá o mercado responde como se esperava, mas é preocupante”, acrescentou Godoy.

O ritmo mais lento das exportações levou a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) a cortar a projeção de crescimento. Na última sexta-feira, em evento em São Paulo, o diretor de relações institucionais da entidade, Ariel Mendes, previu que os embarques de carne de frango crescerão 1% em 2019. A estimativa é mais modesta que a divulgada no fim de agosto pela ABPA, que indicava um avanço entre 4% e 5%.

“Até agora, não se concretizou tudo aquilo que se esperava. O país asiático abateu muitos suínos sadios e isso segurou um pouco as compras deles. Contudo, eles estão tendo que usar seus estoques estratégicos de forma mais forte”, afirmou Mendes.

“Nós pagamos a língua. A gente imaginava que os chineses iam sair comprando tudo, mas isso não se confirmou porque eles são muito habilidosos para negociar”, admitiu Mendes. Para o próximo ano, a ABPA está “cautelosa” em fazer estimativas, segundo o diretor.

“A gente ainda não sabe o que vai acontecer na China”, afirmou o diretor da ABPA. A China é maior compradora de carne de frango do Brasil e, neste ano, ampliou as compras em 20% (66 mil toneladas), para 395 mil toneladas entre janeiro e setembro. No entanto, Hong Kong – tradicional entreposto para o mercado chinês – reduziu a importação de carne de frango brasileira em 13,7%, para 140,1 mil toneladas. Também houve redução nas vendas à Africa do Sul e União Europeia. Juntos, os dois mercados deixaram de comprar 67,6 mil toneladas, praticamente o mesmo volume adicional vendido à China.

Nesse cenário, o receio com a oferta de frango também começou a circular no mercado financeiro. “Os sinais de virada do ciclo estão aí”, disse um analista de um banco brasileiro. Para esse público, é importante antecipar a virada com exatidão para orientar melhor os investidores que apostaram nas ações dos frigoríficos listados na B3. O desafio é descobrir o momento certo para embolsar os lucros acumulados. As ações da BRF, maior produtora de frango do Brasil, já subiram 70% neste ano.

Termômetro importante para essa avaliação, os dados de alojamentos de pintinhos nas granjas indicam uma aceleração da oferta de frango. Segundo a Apinco, 4,3 bilhões de pintinhos foram alojados de janeiro a agosto, alta de 6,7%.

Ao Valor, o presidente da Aviagen na América Latina, Ivan Lauandos, comentou o risco. “Não podemos exagerar na dose de crescimento”. O alerta tem peso. A Aviagen é a maior fornecedora de genética avícola do país e, portanto, é diretamente beneficiada pela expansão da produção. Mas Lauandos disse preferir um aumento moderado a uma expansão desenfreada, sem sustentabilidade econômica.

À luz do ânimo dos empresários com o impacto da peste suína africana na China, as advertências para um possível excesso de oferta de frango podem parecer exageradas, mas não são despropositadas. Historicamente, períodos de boa rentabilidade despertam o espírito animal dos empresários, que costumam intensificar os abates. O problema é que, geralmente, não há demanda para toda a oferta adicional, o que derruba preços. Se a sobreoferta vier a acompanhada de quebra de safra de grãos, uma crise de rentabilidade pode se instalar.

No momento, é preciso ponderar, os indicadores de rentabilidade do ano são positivos. Entre janeiro e setembro, o preço médio da carne de frango congelada no atacado de São Paulo subiu 25% na comparação anual, segundo levantamento do Cepea/Esalq/USP. Nesse mesmo período, a média do indicador Esalq/BM&FBovespa para o milho (insumo da ração) teve alta de 3,3%.

Procurado, o vice-presidente de mercados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, disse não ver risco de sobreoferta no médio prazo. “Não há sobrealojamento”, sustentou, acrescentando que o número de aves matrizes alojadas em 2018 – o que se traduz no frango disponível em 2019 – foi o menor em cinco anos. O ritmo mais fraco das exportações nos últimos dois meses foi um reflexo de “ajustes comerciais” pontuais no Japão e no Oriente Médio.

Santin também disse que os aportes na ampliação de capacidade visando o longo prazo refletem não só a demanda externa, mas a expectativa de recuperação da economia brasileira. Em nota enviada à reportagem após a publicação da matéria, a ABPA acrescentou que a projeção para a produção brasileira de carne de frango em 2019 segue inalterada – deve crescer 1,4%, para 13 milhões de toneladas. A associação também reiterou que não há sobreoferta e que, neste ano, as exportações crescerão.

Ponderações à parte, o fato é que a euforia chinesa encontra céticos. “Não estamos sozinhos no mundo. Outros países também estão se preparando para atender a China”, sintetizou Godoy, da Apinco.

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